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Mensagens

A mostrar mensagens de maio, 2018

a escadaria

A vida comanda, não é comandada. Está dito assim, com este tom de verdade absoluta, afirmativo para o momento. É uma tentativa de aceitação da impotência, de interiorização de que, para além do esforço que se faz para o domínio da realidade, existe uma força maior e vontades alheias que sobrevivem à nossa acção e ao nosso querer. Dito isto, vou trepando pela escadaria esculpida na terra castanha. É enorme, dois mil degraus contados desde esse fundo negro, a esfolar pulmões. Promete o céu e uma luzinha de fé acende-se de quando em quando a iluminar o sítio exacto onde pôr os pés. Evitam-se algumas das dolorosas torções provocadas pela escuridão mas a maioria não.

Mau tempo

O tempo está mau. Chove imenso nos últimos tempos, lágrimas grossas e repentinas, como se uma nuvem se tivesse deslocado propositadamente por sobre o meu pensamento e pacientemente esperasse pelo momento de se esvaziar. E o fizesse repetidamente. E chamasse as amigas para uma tea party. Sem pudores, em casa, na rua, no trabalho, onde quer que. Chato isto.

Feitiço

Chamei pela bruxa velha. E ela lá veio, com o seu rosto enrugado, dentes em falha, cabelos grisalho-desgrenhados, unhas comprido-sujas e um longo vestido preto com entradas de ar por aqui e por ali, a acelerar na auto-estrada dos céus com a sua antiga vassoura 125 de cilindrada. Chegou esbaforida, corada de indignação com os aviões que não facilitavam a passagem, só precisavam encostar um bocadinho mais para um lado, ou para o outro, mas nada. Grande falta de cortesia! E ainda chamuscou a ponta da vassoura e três ou quatro cabelos. Eu estava preparada para tirar de dentro da mala a tiracolo os muitos azares da minha vida, 'Vai à bruxa!' todos me diziam. Só que, eu preguiçosa, em vez de ir, mandei vir e, agora, perante todo este churrasco, antes lhe ofereci um chá acompanhado de bolachinhas de manteiga. Dediquei-me a acalmar a bruxa antes de lhe pedir para fazer maldades, lançar feitiços ou, quem sabe, cozinhar um caldo de magia negra- embora eu não visse nenhum caldeirão p...

Os pássaros

O chilrear dos pássaros acompanha-me, tenho essa boa música da Natureza como banda sonora do filme dos meus dias, um calmante natural a atirar-me para a essência do ser. Um ser natural habitualmente empacotado num longínquo papel de embrulho citadino. Não que se sinta superior ao chão que nos engole, apenas esquecido e adoecido pelo afastamento, sem o saber. Até que, numa manhã, os pássaros chilreiam mais alto ou o meu ouvido está mais atento. Nessa manhã de consciência, um bem-estar desconhecido acena atrevido. A provocar-me!