Avançar para o conteúdo principal

Feitiço

Chamei pela bruxa velha. E ela lá veio, com o seu rosto enrugado, dentes em falha, cabelos grisalho-desgrenhados, unhas comprido-sujas e um longo vestido preto com entradas de ar por aqui e por ali, a acelerar na auto-estrada dos céus com a sua antiga vassoura 125 de cilindrada. Chegou esbaforida, corada de indignação com os aviões que não facilitavam a passagem, só precisavam encostar um bocadinho mais para um lado, ou para o outro, mas nada. Grande falta de cortesia! E ainda chamuscou a ponta da vassoura e três ou quatro cabelos.
Eu estava preparada para tirar de dentro da mala a tiracolo os muitos azares da minha vida, 'Vai à bruxa!' todos me diziam. Só que, eu preguiçosa, em vez de ir, mandei vir e, agora, perante todo este churrasco, antes lhe ofereci um chá acompanhado de bolachinhas de manteiga.
Dediquei-me a acalmar a bruxa antes de lhe pedir para fazer maldades, lançar feitiços ou, quem sabe, cozinhar um caldo de magia negra- embora eu não visse nenhum caldeirão por perto, não coube na vassoura 125 de cilindrada, com certeza- que ponham o universo no seu devido lugar e corrijam o que anda de torto a acontecer.
A bruxa olhou-me nos olhos e das suas mãos lançou sobre mim uns pós brilhantes enquanto cantava uma canção misteriosa cheia de palavras estranhas e eu senti a bondade do mundo ir entrando nos meus pulmões enquanto respirava aquele pó mágico e escutava aquela reza.
A bruxa velha acabou o trabalhinho e abalou, deixando-me enfeitiçada a apreciar o mundo.
Adeus bruxa velha, regressa devagar e longe dos aviões.

Comentários