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Mensagens

A mostrar mensagens de março, 2018

Casa

As casas. Marcam as memórias distorcidas pelos sentimentos e pelos tempos. Que monstros te povoam hoje? Estranhos monstros despigmentados e olhares brancos, de andar lento e frio, desconectados da alma desta casa. Estranhos belíssimos, assim se entendem, fora dos conceitos fabricados ao comum do ser. A doença é o que se quiser dela fazer, emoldura-se na entrada ou esconde-se no sótão. Donde estas molduras que saem magicamente da parede? Muitas, grandes, médias, pequenas, muitos tamanhos, muitas imagens, muito salientes como o teu rosto. Impressões da vida vivida a desafiarem as memórias distorcidas fazendo companhia nesta nova vida a viver. Passa um filme no cubo rotativo que espreita pela parede do fundo. Quero ver-te nesse filme. Porque não funciona? Porquê? Porquê? Quero ver-te! E rodo o cubo em frustração quando a porta da casa-de-banho azul (porquê azul? quando azul?), estreita e comprida, quase bonita (como bonita? quando bonita?) se abre em convite. Aceito.

Fetos

Há fetos por toda a casa, um biombo verde que se espraia aqui e acolá, a lembrar quintais passados. A sanita parece brincar às escondidas pelos fetos, como se a fugir do difícil trabalho que a espera. Ai, aflições nocturnas! Onde estás que me escapas? E eis quando uma serpente ataca sob uma capa amistosa. Treme-se por se temer. E uma revelação é forçada pela necessidade de protecção: o sentimento afinal existe em ti! São perigosas as vozes altas. Fazem transformar os sonhos em realidade, amedrontam! Acordo e percebo que a frieza se tornou mais fácil e que a frieza tornou tudo mais fácil. Mais leve. Pontapeio com prazer as expectativas.

Exame de consciência

Está esta ventania dentro da minha cabeça, pensamentos revoltos, emaranhados, com nós difíceis de desfazer só com um pente. Vou claro que vou, mãe, contigo ao exame. A companhia que ameniza os medos, quero acreditar. Ainda assim, a benevolência, sempre a favor dos filhos. O trabalho, o trabalho. Pois é, o trabalho! O compromisso maior qual é? E vem uma rajada de vento, voa o gorro de lã, o cérebro arrepia-se com a culpa. Como se pode sequer ponderar, pretender escolher? Mas pode. Acontece a realidade invernosa no mundo quente dos sentimentos e aflições. Respiro fundo e as folhas das árvores que rodopiavam pelo chão acalmam a sua dança. O tempo colabora. Vou claro que vou.

Peruca (4)

E chega a horas, ainda és viva!, como ansiava este coração desnorteado... Uma caixa de cartão castanho, mais assim uma cor de mel como o cabelo que protege, redonda, bonita como nos filmes antigos. Seiscentos euros, comparticipados já bem se vê a discussão. Que se lixe o dinheiro. Preciso disto. A vida merece. Que importa o tempo? Quem sabe o tempo? É agora. Agora. O momento em que existo e existes. É agora. A porta do armário range na sua velhice e o espelho devolve a doença sentada na cadeira de rodas. Não se gosta, já raramente se gosta. A transformação rápida vai doendo mas prossegue e não há nada que se possa fazer. Sente-se na pele, nos músculos, nos orgãos, no esqueleto, no apetite, no falar, nas vontades. Sente-se. Somos impotentes. Mas a cabeleira devolve-nos ao dia. Abro a tampa alegremente... mas que molho de caracóis nos prepararam com todo o carinho, boa intenção e compaixão! Sentada na tua  cadeira, pequena, encolhida, fazes a prova. A prova do ridículo. Do medo do ...