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Peruca (4)

E chega a horas, ainda és viva!, como ansiava este coração desnorteado... Uma caixa de cartão castanho, mais assim uma cor de mel como o cabelo que protege, redonda, bonita como nos filmes antigos. Seiscentos euros, comparticipados já bem se vê a discussão. Que se lixe o dinheiro. Preciso disto. A vida merece. Que importa o tempo? Quem sabe o tempo? É agora. Agora. O momento em que existo e existes. É agora.
A porta do armário range na sua velhice e o espelho devolve a doença sentada na cadeira de rodas. Não se gosta, já raramente se gosta. A transformação rápida vai doendo mas prossegue e não há nada que se possa fazer. Sente-se na pele, nos músculos, nos orgãos, no esqueleto, no apetite, no falar, nas vontades. Sente-se. Somos impotentes.
Mas a cabeleira devolve-nos ao dia. Abro a tampa alegremente... mas que molho de caracóis nos prepararam com todo o carinho, boa intenção e compaixão! Sentada na tua  cadeira, pequena, encolhida, fazes a prova. A prova do ridículo. Do medo do desperdício. Seiscentos euros, comparticipados, bem se vê. Ai! Deixa, eu arranjo isso melhor. Lavo, desmancho os caracóis, seco, fica liso, trouxe ganchos. Eu ponho-te linda, o melhor possível. Insisto.
Porque vaidade é vida.

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