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Mensagens

A mostrar mensagens de junho, 2018

Malhas

MFM. Na claridade dos seus olhos encontro conforto para a minha existência. É precioso este momento em que importo o suficiente para me tornar assunto. E esses olhos que o permitem acontecer, ao longo desta travessia conjunta, transformaram-se numa zona de liberdade. Onde a confidência é livre de receios, permitida pelo seu respeito, pela sua atenção às sensibilidades, pela sua postura cândida e doce, pela sua compreensão e paciência. Pelo seu amor universal às pessoas. E, ainda assim, abrindo-me as portas e as janelas para arejar a casa. Mostrando-me outras faces do mundo e de mim própria. Mostrando-me a mim própria!  Amparando o caminho sempre tão difícil. Porque me é difícil viver. O mundo e a vida carregam-me os ombros com um peso imenso. Tem sido um longo percurso repleto de obstáculos a tentar aliviar estes ombros. Constrói-se, sobre uma base danificada, a destreza emocional. Tricota-se delicadamente uma manta a quatro mãos que, na sua ausência, tem surg...

Raízes em corrosão

A incompatibilidade no tempo é uma escolha. Que pensas, Chaparro? Estás ocupado? Logo hoje? Logo agora? E eu que estou aqui disponível para conversar contigo! Faz um jeitinho, anda lá! Não podes? Ou não queres? Que lugar ocupo na tua vida? Fazes outra escolha para este momento em que eu aqui vim? Disposta a partilhar do pensamento? A vida é assim? Será mesmo? Ou será o que dela se decidir? A vontade que faz mover? Com tudo isto, acabou o meu tempo. Sigo caminho. Logo agora? Já podes escutar? Noutra altura, tu compreendes! E é assim que o desencontro se vai nutrindo. Roendo as raízes e suprimindo o alimento à vida. Fica faminta! Escolhemos o tempo. Que pensas, Chaparro? Depois me dizes.

O rio

Passa um rio com uma forte correnteza mesmo em frente à minha janela. Fico ali, parada, horas a fio. Só a observar, a ver aquela água renovar-se constantemente, a cada segundo, naquele intervalo de leito. Em frente à minha janela. Observo como se nada mais existisse, num fascínio saltitante por sobre as pedras molhadas e escorregadias. Que força tem!, segue com a segurança de quem conhece bem o caminho, esclarecido no seu rumo, sem precisar pensar ou tomar decisões. Tudo está já decidido. É só deixar-se levar. Que frescura tem!, leve espuma que se forma e se desfaz na sua brincadeira com as margens coloridas de folhas, ramos soltos e calhaus. Salpicos apetecidos, abro a janela e estendo os braços, mãos abertas à oferta da Natureza. A brisa afaga-me, fresca como a água e perfumada a terra molhada. Há pássaros que cantam escondidos nos ramos das árvores, acompanham alegremente o marulho como se de um maestro e sua batuta. Que renovação!, cada momento é novo, sem passado e sem tempo para...

Fora de portas

Saio de mim, Chaparro. Saio de mim e venho fazer-te um visita, prepara os ramos para me protegerem da chuva, sabes que não gosto da chuva que te permite a vida. Não é por mal, desejo-te uma longa vida, amigo. É uma coisa relacionada com sensações corporais. Desagradável. De todas as vezes que sou apanhada pela intempérie, acabo, entretanto, por perceber que não me vou dissolver na água da chuva e desaparecer por entre as frestas abertas na terra. E esse entendimento devolve uma certa força, uma união que se sente estranha e que termina com um duche quente a devolver-me à frágil vida habitável. Mas contava-te a minha saída. De mim. Para ti. Deixei a solidão sozinha em casa, não me posso demorar, faço-lhe falta, está habituada a mim. Muitos anos. Muitos anos. Mas saí. Ainda que por breves horas. Para saber de ti, sempre viçoso e imperturbável na tua alegria, conta-me coisas boas. Mostra-me o lado feliz dos dias, ensina-me da gratidão. Mestre.