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Mensagens

A mostrar mensagens de fevereiro, 2018

Peruca (3)

Está calor. Transpirei a Capital e agora transpiro o Alentejo, computador armado. Disparo fotos, incentivo, animo na ansiedade. É preciso escolher, querer escolher, querer viver. A vida está nesta cabeleira. O tempo alonga-se infinitamente neste espaço. Não há urgência nesta cama de hospital. O medo hesita em gastar dinheiro. Eu não hesito. Dou o dinheiro todo. Não o quero. Escolhe uma cor, talvez esta, cor de mel, fica-te bem. A operação será. Escolhe, deixa lá. O minuto deste instante é o minuto deste instante. O dinheiro existe para estas coisas. Só te quero bonita como te quiseres bonita. Viva. A anestesia. Até já.

Peruca (2)

As pernas ganham vida quando um propósito as alimenta. Corre-se uma cidade inteira como se de uma rua apenas se tratasse. E as dores cruzam-se pelos mesmos sítios. Mostram-se modelos de perucas. Que ar tão falso. Que desconforto deve causar. Salvam vidas infelizes, o amor-próprio resgatado. E seguem as pernas, de loja em loja, cabelo em cabelo, preço em preço, tempo em tempo, como se existisse tempo, seguem elas. Avenida. Querida. Onde a luta se permitiu continuar entre cores, compaixão, caracóis, tempo, sempre o tempo, como se existisse tempo, fotografa. Assim se decide a vaidade que se precisa viva. Obrigada. Brindo à Svenson.

Peruca (1)

Finalmente a Missão. O contributo para o teu bem-estar forçado. Não faças contas. A vida merece. Qualquer minuto de vida merece. Não tenhas pena, gasta. Gasta contigo tudo o que te dê um vislumbre de luta e de futuro. Minutos de vida, que sejam. Vive. Vive os teus minutos de vida. Vaidosa como sempre. Lutadora como sempre. Gasta sem penas. Eu ajudo-te. És a minha Missão impossível. E percorro Lisboa a pé.

Eternidade

Sob o Sol de Inverno, as campas unem as mágoas num abraço de candura. As minhas lágrimas entrelaçam-se com a oração do velho. Entre a tristeza e a aceitação, assim modulam a música no meu coração. Como aproximar-me de ti? Não sei como fazê-lo. É tão escondida a tua nova morada. E o velho passa, lentamente. Refugio-me debaixo da corrente de água que me alaga. 'Bom dia, menina!' . E no arfar do choro nasce um pálido sorriso no olhar. 'És uma criança!', disse a mãe. Eu nos trinta a queixar-me da idade. Somos sempre meninas para quem segue à nossa frente. Obrigada, velho. Trouxeste a minha mãe contigo, estava com dificuldade em encontrá-la. 'Bom dia!', respondo. Assoo abundantemente o nariz e limpo as lágrimas.