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A mostrar mensagens de 2017

Afogamento

ALERTA! Os mortos pairam em redor da minha loucura... Enchem-me as noites assim os olhos se fechem, Enchem-me os dias assim os olhos se abram! Que mão me protege? Que cansaço! Que cansaço! Muito cansaço! Raiva, Desespero, Desorientação, Cansaço... Muito cansaço! Excesso de vidas enclausuradas neste corpo repugnante, Neste ser esquartejado! Lofepramina, zopiclona, melleril... Produtos são mais que mil! Onde a luz? Onde a luz? Nem para lhes fazer companhia presto, Aos mortos! Faltam-me as forças Muito além da vontade de enrolar a corda... Nasci velha. Nasci com 80 anos, E só. A solidão abraça-me numa terna amizade eterna... Se tenho amigos?, tenho muitos amigos! E depois? Tenho sexo, muito, Rostos falantes, palavras incessantes, muitas... CALEM-SE! Então, pois! Calem-se E escutem os mortos... como eles pairam!

O copito

Empurram-se lágrimas com copos de vinho, benditos ou malditos como se queira. Algo as teria que empurrar porque sózinhas não se orientam. Podes ser tu também. De ti nasce um rio que é mar.

Ai os outros

O barulho de fundo distrai-nos da essência. O tempo perde-se nesse ruído, consome-se sem retorno e sem obra. A audiência condiciona a pena molhada em tinta sugestionada. Tolhe a liberdade pela dependência e ansiedade da matemática. Quem me leu. Ou não leu. Ou leu. Ou não leu. Baixar o volume. Focar. Atender à carência solta nesses números doentios. E à necessidade absoluta de solidão. Sintra é linda. Respiro a minha vida. Sem explicação.

Colo

O espaço é estranho. Está calor logo pela manhã. Faz muita sede, bebo muita água mas preciso de mais. Onde me darão um copo de água? Tudo fechado ainda e tu, tu, só pensas em ti. Não tens amor para me saciar. A floresta está verde, as folhas dançam suavemente, ouve-se o seu rumor doce como uma laranja de Janeiro. Verdadeira e cá da terra. Mas este calor e esta falta de amor! Embrulho-me nas folhas verdes cantantes à procura de conforto no colo da Mãe. Silêncio finalmente.

O tapete roto

O Sol passa pelos buracos do tapete mas eu não desisto. Estico-o como se fosse possível ficar novo e uso-o com toda a sua história que é a minha, pois então. A Mestre inicia a aula e o yoga sobrepõe-se. Entro numa espiral de alheamento exterior e leveza sobre a vida, que é a minha, pois então. Num abraço ao velho amigo tapete.

Insatisfação

Durmo enrolada num cobertor que não quero porque saltito de desculpa em desculpa para não mudar a cama. A mudança exige coragem, algum espírito de aventura. Muita energia também. É mais fácil ir-me queixando. Mar já navegado. Conheço os Adamastores, berro-lhes, e sigo. Amanhã, mais do mesmo. Nasci sem um tomate...

A construção

Um espaço próprio. Um espaço que seja eu. Na ansiedade do tempo, não há de mim em lado nenhum. Sinto-me sem tecto. Apesar do tecto. E mais devagar do que a lentidão, pedacinhos muito pequeninos de mim vão-se espalhando. Por aí. É difícil o conforto das paredes. Sinto-me em busca permanente desse lugar que seja eu. Não existe. Tem que ser construído mas é uma construção fenomenalmente penosa. Morosa. Requer músculos que me faltam. Tenho a visão. Vejo-me plena de mim, reconhecida pelo universo, ali naquele spot. E coloco mais uma pedrinha acamada em gesso que se queria betão.

Desobediência

A insatisfação enche demasiado os dias e a morte aproxima-se com o passar do tempo. Nem uma nem outra se resolvem por incapacidade minha. O desperdício dá-me estalos gelados que me impedem o movimento por longos momentos carentes de silêncio. O tique-taque imparável do relógio comanda a cadência da consciência, segundo a segundo. Páro-o na esperança de atrasar o andamento rotacional até que o meu cérebro se reorganize. Aparentemente, a Terra é rebelde. Raios!

Pessimismo

Diz-me qualquer coisa, dir-te-ei o que puder de contrariedades. Apresenta-me a melhor ideia do mundo e do céu, estou certa que conseguirei demoli-la. Serviço garantido com análise minuciosa e adivinhação certeira do futuro macabro. Se estiveres com ideias, esquece-as, antes que seja tarde demais!

O segredo

A minha vida é um enorme segredo aberto. Tudo o que parece não é. Ninguém tem que saber. A ninguém devo satisfação. Liberdade para mentir ou omitir, conforme a conveniência à protecção do segredo. Da minha vida. Misteriosamente apareceu. Misteriosamente desaparecerá. A minha vida.

O bonito no meio dos feios

Alucino. Onde estou? Tanta rua tem Lisboa! Acordo nesta casa emprestada. Velha. Feia. Mal decorada e sem vontade de se enfeitar. Rodeada de velhos e de novos, feios também. Rabugentos. Todos. Tantos mal-estares. Mas tu apareces, brincalhão, jovem, lindo. Ladras e saltas-me para cima, lambes-me com beijos de filho. Que saudades! Onde tens andado? Voltaste para ficar?

O espaço sem espaço

É uma casa do mais estranho que se possa imaginar, imaginas? Chão de terra batida, com a vantagem de não precisar ser varrida. É um critério importante na escolha de casa. Se não precisas varrer, é comprar. Faz segredo. Tenho vizinhos malucos, não percebi bem se ma venderam ou alugaram. O banco não me emprestou o dinheiro e eu vou-lhes dando dinheiro a eles, todos os meses um pouco. O Cristóvão continua a tentar entrar dentro da casa. Empurro-o, digo-lhe que já não é dele, que faça chichi noutra sanita, não me interessa que esteja aflito, aflitinho, e fecho a porta. Ah! O meu espaço! Diminuto com este beliche de ferro enferrujado com uma janela a meio caminho onde a rua espreita. Mas meu. Enquanto puder fechar a porta por dentro, pelo menos.

Os sonhos doem

Abençoo-te criaturinha que, inconscientemente, me arrancas da vida dos sonhos. Quem quer tanta vida, a real e a sonhada? Que canseira de trabalhos, viver milhares de vidas numa só, não sei se o coração aguenta.