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Mensagens

A mostrar mensagens de 2018

Corrida

Se pudesse absorver todos os momentos num só! Todos os momentos que tornam a vida vida. Sentido e valor ao tempo finito de um dia. A fome do acontecer é paralisante, as vontades anulam-se pela impossibilidade de agarrar todas neste preciso tempo que pica o ponto. As escolhas moem porque o tempo passa incansável. Cansando.

Malhas

MFM. Na claridade dos seus olhos encontro conforto para a minha existência. É precioso este momento em que importo o suficiente para me tornar assunto. E esses olhos que o permitem acontecer, ao longo desta travessia conjunta, transformaram-se numa zona de liberdade. Onde a confidência é livre de receios, permitida pelo seu respeito, pela sua atenção às sensibilidades, pela sua postura cândida e doce, pela sua compreensão e paciência. Pelo seu amor universal às pessoas. E, ainda assim, abrindo-me as portas e as janelas para arejar a casa. Mostrando-me outras faces do mundo e de mim própria. Mostrando-me a mim própria!  Amparando o caminho sempre tão difícil. Porque me é difícil viver. O mundo e a vida carregam-me os ombros com um peso imenso. Tem sido um longo percurso repleto de obstáculos a tentar aliviar estes ombros. Constrói-se, sobre uma base danificada, a destreza emocional. Tricota-se delicadamente uma manta a quatro mãos que, na sua ausência, tem surg...

Raízes em corrosão

A incompatibilidade no tempo é uma escolha. Que pensas, Chaparro? Estás ocupado? Logo hoje? Logo agora? E eu que estou aqui disponível para conversar contigo! Faz um jeitinho, anda lá! Não podes? Ou não queres? Que lugar ocupo na tua vida? Fazes outra escolha para este momento em que eu aqui vim? Disposta a partilhar do pensamento? A vida é assim? Será mesmo? Ou será o que dela se decidir? A vontade que faz mover? Com tudo isto, acabou o meu tempo. Sigo caminho. Logo agora? Já podes escutar? Noutra altura, tu compreendes! E é assim que o desencontro se vai nutrindo. Roendo as raízes e suprimindo o alimento à vida. Fica faminta! Escolhemos o tempo. Que pensas, Chaparro? Depois me dizes.

O rio

Passa um rio com uma forte correnteza mesmo em frente à minha janela. Fico ali, parada, horas a fio. Só a observar, a ver aquela água renovar-se constantemente, a cada segundo, naquele intervalo de leito. Em frente à minha janela. Observo como se nada mais existisse, num fascínio saltitante por sobre as pedras molhadas e escorregadias. Que força tem!, segue com a segurança de quem conhece bem o caminho, esclarecido no seu rumo, sem precisar pensar ou tomar decisões. Tudo está já decidido. É só deixar-se levar. Que frescura tem!, leve espuma que se forma e se desfaz na sua brincadeira com as margens coloridas de folhas, ramos soltos e calhaus. Salpicos apetecidos, abro a janela e estendo os braços, mãos abertas à oferta da Natureza. A brisa afaga-me, fresca como a água e perfumada a terra molhada. Há pássaros que cantam escondidos nos ramos das árvores, acompanham alegremente o marulho como se de um maestro e sua batuta. Que renovação!, cada momento é novo, sem passado e sem tempo para...

Fora de portas

Saio de mim, Chaparro. Saio de mim e venho fazer-te um visita, prepara os ramos para me protegerem da chuva, sabes que não gosto da chuva que te permite a vida. Não é por mal, desejo-te uma longa vida, amigo. É uma coisa relacionada com sensações corporais. Desagradável. De todas as vezes que sou apanhada pela intempérie, acabo, entretanto, por perceber que não me vou dissolver na água da chuva e desaparecer por entre as frestas abertas na terra. E esse entendimento devolve uma certa força, uma união que se sente estranha e que termina com um duche quente a devolver-me à frágil vida habitável. Mas contava-te a minha saída. De mim. Para ti. Deixei a solidão sozinha em casa, não me posso demorar, faço-lhe falta, está habituada a mim. Muitos anos. Muitos anos. Mas saí. Ainda que por breves horas. Para saber de ti, sempre viçoso e imperturbável na tua alegria, conta-me coisas boas. Mostra-me o lado feliz dos dias, ensina-me da gratidão. Mestre.

a escadaria

A vida comanda, não é comandada. Está dito assim, com este tom de verdade absoluta, afirmativo para o momento. É uma tentativa de aceitação da impotência, de interiorização de que, para além do esforço que se faz para o domínio da realidade, existe uma força maior e vontades alheias que sobrevivem à nossa acção e ao nosso querer. Dito isto, vou trepando pela escadaria esculpida na terra castanha. É enorme, dois mil degraus contados desde esse fundo negro, a esfolar pulmões. Promete o céu e uma luzinha de fé acende-se de quando em quando a iluminar o sítio exacto onde pôr os pés. Evitam-se algumas das dolorosas torções provocadas pela escuridão mas a maioria não.

Mau tempo

O tempo está mau. Chove imenso nos últimos tempos, lágrimas grossas e repentinas, como se uma nuvem se tivesse deslocado propositadamente por sobre o meu pensamento e pacientemente esperasse pelo momento de se esvaziar. E o fizesse repetidamente. E chamasse as amigas para uma tea party. Sem pudores, em casa, na rua, no trabalho, onde quer que. Chato isto.

Feitiço

Chamei pela bruxa velha. E ela lá veio, com o seu rosto enrugado, dentes em falha, cabelos grisalho-desgrenhados, unhas comprido-sujas e um longo vestido preto com entradas de ar por aqui e por ali, a acelerar na auto-estrada dos céus com a sua antiga vassoura 125 de cilindrada. Chegou esbaforida, corada de indignação com os aviões que não facilitavam a passagem, só precisavam encostar um bocadinho mais para um lado, ou para o outro, mas nada. Grande falta de cortesia! E ainda chamuscou a ponta da vassoura e três ou quatro cabelos. Eu estava preparada para tirar de dentro da mala a tiracolo os muitos azares da minha vida, 'Vai à bruxa!' todos me diziam. Só que, eu preguiçosa, em vez de ir, mandei vir e, agora, perante todo este churrasco, antes lhe ofereci um chá acompanhado de bolachinhas de manteiga. Dediquei-me a acalmar a bruxa antes de lhe pedir para fazer maldades, lançar feitiços ou, quem sabe, cozinhar um caldo de magia negra- embora eu não visse nenhum caldeirão p...

Os pássaros

O chilrear dos pássaros acompanha-me, tenho essa boa música da Natureza como banda sonora do filme dos meus dias, um calmante natural a atirar-me para a essência do ser. Um ser natural habitualmente empacotado num longínquo papel de embrulho citadino. Não que se sinta superior ao chão que nos engole, apenas esquecido e adoecido pelo afastamento, sem o saber. Até que, numa manhã, os pássaros chilreiam mais alto ou o meu ouvido está mais atento. Nessa manhã de consciência, um bem-estar desconhecido acena atrevido. A provocar-me!

O génio da lâmpada

Ouvem-se as vozes, são muitas, sobrepõem-se, ensurdecem. As vozes da maledicência. No centro, estou eu. O bicho estranho. Calado. Um foco de luz amarela bem direccionado deixa-me bem focado... Esmagas a voz na amálgama insuportável ou terás que ser reduzido por um esganiçado mais encarniçado. O toque de génio consiste em escapar ileso. Onde a lâmpada mágica quando faz falta?

História

Persegues-me em sonhos. A verdade é que te temo. O confronto, sempre o confronto. Desapareceu a zona de conforto. Todas as zonas são agora de desconforto. E desconfiança. Uma palavra vale nada, de que serve então? Preencher silêncios com vazios. O desencontro é total. Tristemente total. Por isso, os sonhos. Pela tristeza. Pela história de vida. Que ficou para a História. A vida segue. Em solidão, habitual.

Flor

Estás aqui flor amarela. E eu foco-me no desejo frustrado de todas as outras flores que estão por nascer, que fariam um jardim magnífico, um potencial desejado mas irreal no momento. Entretanto, tu flor amarela, tens o teu curto tempo de esplendor. Completas o teu ciclo. Eu choro a perda. Que desajuste nestas lágrimas permanentes...

A leveza leve

O explicadinho. Tudo muito bem analisado, sob todos os pontos e vértices e lados, depois descrito, explicado... não vá alguém enganar-se, ai, as interpretações... para o raio as interpretações! Depois as ideias mudam, porque o sentido é o momento que o faz. E o explicadinho reexplica-se contraditoriamente. Não se acredita, então, mas, afinal... É o pensamento, explica-se mais uma vez, outra, diferente amanhã, talvez. O pensamento segue com a vida e o sentimento e o raciocínio nas circunstâncias. Talvez se se explicasse menos pudesse viver mais livre e vogar em leveza.

O peso pesado

O procedimento quando não existe gera um novelo complicado de desenovelar. O que fazer? Ora é isto o certo. Minutos depois é aquilo, afinal. A seguir já nada serve. Deixar andar é um conceito esquisito. Difícil de aplicar. Não decisório. Porque precisamos de tomar decisões sobre tudo. Organizar. Compartimentar. Arrumar. Deixar claro. Esclarecer. O esclarecimento. Essa coisa feita de ferro pesado pesadíssimo. (Des)necessário?

Casa

As casas. Marcam as memórias distorcidas pelos sentimentos e pelos tempos. Que monstros te povoam hoje? Estranhos monstros despigmentados e olhares brancos, de andar lento e frio, desconectados da alma desta casa. Estranhos belíssimos, assim se entendem, fora dos conceitos fabricados ao comum do ser. A doença é o que se quiser dela fazer, emoldura-se na entrada ou esconde-se no sótão. Donde estas molduras que saem magicamente da parede? Muitas, grandes, médias, pequenas, muitos tamanhos, muitas imagens, muito salientes como o teu rosto. Impressões da vida vivida a desafiarem as memórias distorcidas fazendo companhia nesta nova vida a viver. Passa um filme no cubo rotativo que espreita pela parede do fundo. Quero ver-te nesse filme. Porque não funciona? Porquê? Porquê? Quero ver-te! E rodo o cubo em frustração quando a porta da casa-de-banho azul (porquê azul? quando azul?), estreita e comprida, quase bonita (como bonita? quando bonita?) se abre em convite. Aceito.

Fetos

Há fetos por toda a casa, um biombo verde que se espraia aqui e acolá, a lembrar quintais passados. A sanita parece brincar às escondidas pelos fetos, como se a fugir do difícil trabalho que a espera. Ai, aflições nocturnas! Onde estás que me escapas? E eis quando uma serpente ataca sob uma capa amistosa. Treme-se por se temer. E uma revelação é forçada pela necessidade de protecção: o sentimento afinal existe em ti! São perigosas as vozes altas. Fazem transformar os sonhos em realidade, amedrontam! Acordo e percebo que a frieza se tornou mais fácil e que a frieza tornou tudo mais fácil. Mais leve. Pontapeio com prazer as expectativas.

Exame de consciência

Está esta ventania dentro da minha cabeça, pensamentos revoltos, emaranhados, com nós difíceis de desfazer só com um pente. Vou claro que vou, mãe, contigo ao exame. A companhia que ameniza os medos, quero acreditar. Ainda assim, a benevolência, sempre a favor dos filhos. O trabalho, o trabalho. Pois é, o trabalho! O compromisso maior qual é? E vem uma rajada de vento, voa o gorro de lã, o cérebro arrepia-se com a culpa. Como se pode sequer ponderar, pretender escolher? Mas pode. Acontece a realidade invernosa no mundo quente dos sentimentos e aflições. Respiro fundo e as folhas das árvores que rodopiavam pelo chão acalmam a sua dança. O tempo colabora. Vou claro que vou.

Peruca (4)

E chega a horas, ainda és viva!, como ansiava este coração desnorteado... Uma caixa de cartão castanho, mais assim uma cor de mel como o cabelo que protege, redonda, bonita como nos filmes antigos. Seiscentos euros, comparticipados já bem se vê a discussão. Que se lixe o dinheiro. Preciso disto. A vida merece. Que importa o tempo? Quem sabe o tempo? É agora. Agora. O momento em que existo e existes. É agora. A porta do armário range na sua velhice e o espelho devolve a doença sentada na cadeira de rodas. Não se gosta, já raramente se gosta. A transformação rápida vai doendo mas prossegue e não há nada que se possa fazer. Sente-se na pele, nos músculos, nos orgãos, no esqueleto, no apetite, no falar, nas vontades. Sente-se. Somos impotentes. Mas a cabeleira devolve-nos ao dia. Abro a tampa alegremente... mas que molho de caracóis nos prepararam com todo o carinho, boa intenção e compaixão! Sentada na tua  cadeira, pequena, encolhida, fazes a prova. A prova do ridículo. Do medo do ...

Peruca (3)

Está calor. Transpirei a Capital e agora transpiro o Alentejo, computador armado. Disparo fotos, incentivo, animo na ansiedade. É preciso escolher, querer escolher, querer viver. A vida está nesta cabeleira. O tempo alonga-se infinitamente neste espaço. Não há urgência nesta cama de hospital. O medo hesita em gastar dinheiro. Eu não hesito. Dou o dinheiro todo. Não o quero. Escolhe uma cor, talvez esta, cor de mel, fica-te bem. A operação será. Escolhe, deixa lá. O minuto deste instante é o minuto deste instante. O dinheiro existe para estas coisas. Só te quero bonita como te quiseres bonita. Viva. A anestesia. Até já.

Peruca (2)

As pernas ganham vida quando um propósito as alimenta. Corre-se uma cidade inteira como se de uma rua apenas se tratasse. E as dores cruzam-se pelos mesmos sítios. Mostram-se modelos de perucas. Que ar tão falso. Que desconforto deve causar. Salvam vidas infelizes, o amor-próprio resgatado. E seguem as pernas, de loja em loja, cabelo em cabelo, preço em preço, tempo em tempo, como se existisse tempo, seguem elas. Avenida. Querida. Onde a luta se permitiu continuar entre cores, compaixão, caracóis, tempo, sempre o tempo, como se existisse tempo, fotografa. Assim se decide a vaidade que se precisa viva. Obrigada. Brindo à Svenson.

Peruca (1)

Finalmente a Missão. O contributo para o teu bem-estar forçado. Não faças contas. A vida merece. Qualquer minuto de vida merece. Não tenhas pena, gasta. Gasta contigo tudo o que te dê um vislumbre de luta e de futuro. Minutos de vida, que sejam. Vive. Vive os teus minutos de vida. Vaidosa como sempre. Lutadora como sempre. Gasta sem penas. Eu ajudo-te. És a minha Missão impossível. E percorro Lisboa a pé.

Eternidade

Sob o Sol de Inverno, as campas unem as mágoas num abraço de candura. As minhas lágrimas entrelaçam-se com a oração do velho. Entre a tristeza e a aceitação, assim modulam a música no meu coração. Como aproximar-me de ti? Não sei como fazê-lo. É tão escondida a tua nova morada. E o velho passa, lentamente. Refugio-me debaixo da corrente de água que me alaga. 'Bom dia, menina!' . E no arfar do choro nasce um pálido sorriso no olhar. 'És uma criança!', disse a mãe. Eu nos trinta a queixar-me da idade. Somos sempre meninas para quem segue à nossa frente. Obrigada, velho. Trouxeste a minha mãe contigo, estava com dificuldade em encontrá-la. 'Bom dia!', respondo. Assoo abundantemente o nariz e limpo as lágrimas.

Fragilidades

Que fragilidade! Que dor filial! Sinto no meu corpo as tuas dores e indigno-me... Sou bruta! Revoltada! Não é bom sentir a dor alheia. Olho e vejo o envelhecimento, adivinho a queixa dos ossos e da pele que se transforma. Sinto o teu definhar como se meu. Indigno-me. Malvado, tu, que o provocaste. Não há dúvidas, só certezas.  Que ignorância! Que ignorância!  Repito agora, uma e outra e outra vez. Que ignorância! Como ousei ocupar o Lugar? Querer estar acima do Universo, do incompreensível que rege as Vidas. A porta entreaberta faz por mim. A mão que toca no peito desejado, ainda que velho e usado, como se novo, cheio da memória e da vivência. Um peito desejado ainda, mão sobre a pele enrugada, estranhamente amada (?), sob o choro do perdão que se deseja sem se conseguir pronunciar. Um gesto a falar num corpo igualmente sofrido e envelhecido. Numa dor de alma. O entendimento inatendível. Mortal!

O evento

Atirado o dardo, segue uma trajectória de mundo nenhum: dá uma curva em redor de uma coluna, desce as escadas para o andar inferior, onde ziguezagueia em liberdade e sem destino, voltando a subir para o andar inicial onde consegue acertar na borda do alvo quadrado. Por pouco estragava a cal da coluna. Que sorte ou azar de pontaria. E é isto. O evento importante. Valeu a pena a viagem para comparecer, ainda assim. Por ti. Sempre por ti. Vale sempre as penas todas.

Onde a Missa do Natal?

A Maria ficou passada, disse o padre sobre a Virgem. E a assembleia pasmou. É uma casa farta: o marido farto da mulher, a mulher farta do marido e os filhos fartos dos pais, disse o padre sobre a vida dos comuns mortais. E a assembleia pasmou. Vinham ouvir o Natal, a alegria do nascimento, renovar a fé com o espírito da época. Presenteados com esta modernice mal educada, escaparam-se para os sonhos. Fritos.